domingo, 3 de setembro de 2017

COLUNA DO EDITOR-06: A Retórica da Intransigência contra a Política de Tolerância


A motivação para escrever este texto nasceu na mesma velocidade em que meus sentidos liam ou buscavam subsídios racionais para entender as entrelinhas, além da mera informação, da notícia quase imperceptível publicada em diversos portais algumas semanas atrás. O receio de não conseguir materializar as indignações, de não produzir efeitos contrários à "ameaça" do discurso, povoaram meus pensamentos. Porém, mesmo diante da eminente inabilidade na produção narrativa, fui vencido ou persuadido, pela ideia utópica de respeito e convivência comunitária.
Certamente o texto da Profª Anna Gicelle - O Historiador e o Zé da esquina - na mesma medida que oferece um rigoroso exemplo do que é possuir um nível de criticidade acerca de determinada conjuntura, mantém vivo o sentimento de não nos acomodarmos, tampouco, silenciarmos ante perspectivas nada democráticas.
A alarmante notícia, porém, sem status de "novidade", foi um recado do Pastor Silas Malafaia para dois entre os mais cotados presidenciáveis em 2018, publicada nos maiores portais da internet (abaixo três links para consulta): 
  1. Folha: Quem seguir o politicamente correto vai dançar, diz Malafaia a Alckmin e Doria
  2. Estadão: Malafaia diz a Alckmin e Doria que evangélicos não vão negociar "ideologia de gênero"  
  3. Globo.com: Malafaia diz que não apoiará candidatos que defendem ideologia de gênero. 
É inegável, mesmo que a maioria não perceba, que o contexto político mundial, tem caminhado em franca marcha para o predomínio dos setores mais conservadores. Em alguns casos, até para os mais radicais. A tradição política do Brasil, historicamente elitista e conservadora,  demonstra, deliberadamente, o plano em curso de dominação ideológica e cultural. Para isso, é necessário ocupar significativa parcela da política institucional, através de diversos setores. Apoiar partidos e candidatos que defendam interesses unilaterais em detrimento das resoluções de interesse geral, na negociata e barganha do toma lá - dá cá. É neste afluxo que se encontram os maiores setores dos chamados pentecostais e neopentecostais, além de outras tradicionais denominações cristãs mais veladamente. E que se registre, não vejo a participação do Cristo nisto tudo.
O Modus Operandi é bem claro faz algum tempo. Apoiam, patrocinam e elegem seus defensores. Negociam bancadas e lideranças nas mais variadas atuações, e pior, em todos os níveis institucionais(municipal, estadual e federal, em todos os poderes). Assim pouco a pouco, foram tomando forma de bloco, partido, setor ou qualquer outra coisa do tipo. 

Sua principal bandeira "Salvar o país de todo o MAL"!
O "mal", está escondido nas famílias (Aquelas que fogem da constituição básica e tradicionalista), nas escolas que constitucionalmente devem ser laicas e apartidárias (constituição? Estado laico? apartidária?), nos livros (pois o único sagrado e incontestável é a BÍBLIA), na televisão (com execessão dos programas que eles mesmos produzem), na música (deve ser por isso que a indústria Gospel tem se desdobrado e produzido nos mais variados estilos, talvez para salvar esta arte humana), no teatro, cinema, nas universidades, enfim, onde haja relacionamento humano, produção de ideias, de reflexões, de contraditório e da crítica que contribua para o desenvolvimento do pensamento
Confundem apenas para complicar, "Livro Sagrado" com "Constituição", pregação evangelista com "Discurso Retórico e Político". Assim produzem efeitos mágicos nos seguidores desinformados, carentes de senso crítico e hipnotizados pelas demonstrações de poder. Qualquer um que esteja fora destes padrões, é obra de Satanás! Sua chances? Converta-se, contribua e VOTE naqueles escolhidos pelos "Messias".

O termo "tolerância" por si só, já é quase um insulto a coexistência dos diferentes, em alguns dicionários/portais representa "aceitar" ou "suportar". O mais adequado não seria respeitar? Há quem defenda que tolerar é um ato de respeito. Respeito quem pensa assim. Pois bem, vejamos como é claro o jogo retórico daqueles que não "suportam" e "aceitam" as diferenças, amparados na política de Estado onde suas aspirações podem validar pactos sociais para determinarem toda e qualquer "anomalia", conforme seus princípios. Não se limitam as esferas - de identidade de gênero ou sexualidade - combatem todas as manifestações, sejam elas, culturais, filosóficas, religiosas, artísticas, políticas sempre com o discurso da demonização. A isto, entendo, como a retórica da intransigência...                         

Por isso insisto! Antes de umbandistas, somos humanos, parte integrante de famílias e comunidades. Não devemos aceitar calados tudo que nos é imposto! Principalmente quando o projeto é atingir nossas liberdades.
Relembro que a proposta desta coluna, não é tratar ou falar, única e exclusivamente de Umbanda para umbandistas, esta seção está a serviço de todas as possibilidades de um bom debate, provedor de críticas, reflexões e ideias. Tomare que discordem das ideias expostas, mas que tenham outras tantas que não justifiquem intransigência e intolerância. Escreva-nos, defenda suas posições!    

Axé! Boa semana!

O Editor.                            

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