domingo, 17 de janeiro de 2016

A DEMONIZAÇÃO DE EXÚ #2


Olá amigos leitores !

Saudações a todos e antes de iniciarmos os trabalhos, desejamos que este ano 2016 seja de muita saúde, paz e prosperidade com a graça de Deus, dos Orixás e dos nossos amigos guias espirituais que compõe  as linhas de frente da Umbanda de todos nós!

Bem, além de nossa postagem Retrospectiva com a qual encerramos as atividades de 2015, iniciamos um pouco antes, uma série de três textos com o propósito de contribuir para o entendimento geral sobre as questões ligadas à Exú.
Neste primeiro texto que intitulamos Exú Mitológico, tentamos esclarecer por breves parágrafos a origem mitológica do Orixá Exú que pertence ao panteão Iorubá, sua importância dentro destas sociedades e atuação como agente cósmico na "função" de Mensageiros dos Mundos (Céu e Terra/ Orun e Aiyê), guardião dos caminhos, cidades e homens, além de sua influência sobre a fertilidade dos seres humanos que está diretamente ligada ao sistema de descendência da raça.

Neste sentido, pensando em uma elaboração que obedecesse a uma sequência cronológica, nos dedicamos em pesquisar como a figura de Exú tomou as feições do Diabo, figura clássica da tradição cultural Judaico-Cristã, já que passamos pela questão mitológica, cujo é a essência de todo o debate de idéias em torno de Exú, quando tratamos dos Orixás. 
Como de costume lembramos a todos os simpáticos que nossos textos são frutos das conclusões formadas a partir das leituras e pesquisas que realizamos, e reiteramos que o espaço continua aberto para os comentários, sugestões e críticas construtivas...

SERIA EXÚ O DEMÔNIO ?


Esta é a questão que permeia o imaginário popular, sobretudo no Brasil, dentro ou fora dos círculos das religiões Afro-brasileiras, na Umbanda, no Espiritismo e principalmente no Catolicismo e no Neopentecostalismo, enfim, qualquer pessoa que escute a palavra de Exú tem seu pensamento voltado a imagem do ser horrendo oriundo das "profundezas", com chifres, pés de bode, tridente e capa, conforme nos sugere a imagem ao lado.      
Para tentar explicar essa questão, como fizemos na abordagem anterior, recorremos a literatura "de fora", como denominam alguns escritores umbandistas, exploramos principalmente o excelente artigo do sociólogo Reginaldo Prandi intitulado Exú, de mensageiro a Diabo, além de outras fontes "de dentro" também. 

Para entendermos como se desenrolou esta relação, temos que voltar um pouco aos conteúdos de História, em um dos assuntos que geralmente não voltamos a devida atenção e importância nos anos escolares, que foi a Expansão Marítima Européia liderada pelos portugueses a partir do século XV. Entre as principais razões para o empreendimento desta expansão, podemos ressaltar, a conquista de novas terras pela simples presunção de suas existências, pois não eram fato concreto e conhecido até então, razões comerciais e políticas, além é claro da expansão da fé católica. 
Durante os dois ou três séculos que sucederam o início do processo, intensas movimentações através do Atlântico permitiram aos europeus dominarem territórios e estabelecerem entrepostos mercantis ou feitorias sobretudo na África, além de também estabelecerem colônias tanto na África quanto nas Américas, enfim, a Europa invadiu outros continentes, as custas de muita força e desprezo aos povos que encontravam, em consequência disto, a distorção e a alienação cultural fruto do etnocentrismo dos europeus deturpou toda uma série de significados relacionados às divindades e cultos dos povos dominados.

Incursões de viajantes e missionários, encomendadas ou não pela Igreja Católica, que a época ditava os dogmas e condutas de relacionamento com a fé e o sagrado, que refletiam nas tendências do comportamento humano em sociedade, ou seja, a instituição Igreja determinava com muita propriedade e sem nenhuma contestação o que era certo, quem eram os santos e mártires, tudo isso  com muita influência, poder político e aceitação por parte dos Estados Monárquicos. Então com as mentes e tendências interpretativas completamente "contaminadas" pela ostensiva cultura Cristã, tais missionários, enviavam a Europa seus escritos relatando segunda suas capacidades e formação aquilo que encontravam em terras africanas, no território Iorubá, logo, não faltaram adjetivações aos Orixás e principalmente a Exú. 
O citado artigo de Reginaldo Prandi faz menção dos escritos de Verger à respeito dos viajantes cristãos, não é a única fonte que os citam, mas, nós utilizando esta referência, separamos alguns com o intuito de ilustrar para os nossos amigos leitores o que pensavam esses senhores: 
  
[Em 1789 por  Pommergorge] - Atribuiu a imagem Exú ao deus Príapo( da mitologia Grega, senhor da fertilidade). fazendo referências ao "falo" de Exú ser muito exagerado em relação ao resto do corpo.
[Em 1857 por Thomas Bowen] - "na língua Iorubá o diabo é denominado Exu, aquele que foi enviado outra vez, nome que vem de su, jogar fora, e Elegbara, o poderoso, nome devido ao seu grande poder sobre as pessoas". 
[Em 1885 por Abade Pierre Bouche]- "Os negros reconhecem em Satã o poder da possessão, pois o denominam comumente Elegbara, isto é, aquele que se apodera de nós".
[Em 1884 pelo Padre católico, R. P. Baudin, da Sociedade das Missões Africanas de Lyon e missionário na Costa dos Escravos] - Em um livro que aborda de forma sistemática a religião dos Iorubás... "O chefe todos os gênios maléficos, o pior deles e o mais temido, é Exú, palavra que significa o rejeitado; também chamado de Elegbá ou Elegbara, o forte, ou ainda Ogongo Ogó, o gênio do bastão nodoso"...

Neste sentido, a questão que inicia nosso desenvolvimento acerca do processo histórico que demonizou Exú, para nós, pode ser facilmente respondida:
A ligação do Orixá ao Diabo é fruto pura e simplesmente de uma interpretação intencional e mentirosa, que não teve o menor apreço por seus significados e aplicações em um sistema social completamente diverso ao que os europeus entendiam e tinham como ideal, ou seja, não restam dúvidas que Exú é vitima de todo este processo, pois, desmoralizar a fé dos africanos e impor-lhes a fé cristã era uma forma também de "domesticá-los" para obterem em outro empreendimento conhecido como escravidão mais facilidades, além é claro, da presunção etnocêntrica enraizada a muito na Europa. E ainda no artigo de Prandi, encontramos a menção de Roger Bastide, que denomina Exú como "divindade caluniada".

E COMO EXÚ FOI TRATADO EM SOLO BRASILEIRO ?

A velha história da colonização do Brasil é mais que conhecida pelas pessoas, com mais detalhamento ou não, porém bem disseminada, para isso lembrarmos que os africanos escravizados resistiam como podiam e nas mais variadas formas, nos chegará ao entendimento que a preservação dos cultos aos Orixás, dentro daquilo que se era possível, foi uma dessas atividades de resistência cultural. 
Para isso, explicar a questão do sincretismo é fundamentalmente o ponto de partida. Ainda no artigo de Prandi, encontramos importantes observações por aspectos geralmente pouco analisados, e deste modo, acrescenta-nos outros caminhos para avaliar o processo, conforme o trecho a seguir nos sugere:

..."O sincretismo não é, como se pensa, uma simples tábua de correspondência entre orixás e santos católicos, assim como não representava o simples disfarce católico que os negros davam ao orixás para poder cultuá-los livres da intransigência do senho branco, como de modo simplista se ensina nas escolas até hoje"...

Para o autor, esta ligação foi formulada pela existência do julgamento entre bem e mal, regulada pelo pudor do "pecado", que não existiam ou apareciam com outros pesos e medidas nas sociedades africanas que cultuavam os Orixás. Então, temos que entender que a cristianização dos Orixás resultou em perdas significativas de suas características intrínsecas, ressignificando suas essências e modificando a aplicação prática de seus rituais. 
Para Exú marcado pelo selo do "Diabo", coube cumprir seu papel como o personagem estigmatizado na formação da cultura afro-brasileira, no excelente documentário A Boca do Mundo - Exú no Candomblé, encontramos depoimentos de babalorixás que afirmam e confirmam a "tal" forma do Orixá, como "meio" de defesa que os negros escravizados ainda na sociedade colonial que encontravam nesta situação, certas maneiras protegerem-se. 

Em meados e fim do século XIX e no início do século XX, os primeiras grupamentos de religiões afro-brasileiras tomavam formas mais organizadas, com diversas denominações, em todo território do país e, em cada uma delas, Exú, tomava seu espaço recebendo suas homenagens e cultos.
Nos centros mais urbanizados do Sudeste, sobretudo no Rio de janeiro, as Macumbas cariocas mais tarde a Quimbanda e a Umbanda também trabalharam cada qual a sua maneira os aspectos ligados à Exú, porém, suas características e formas já estavam tachadas e faziam dele o "marginal" da espiritualidade. 
Tudo isso, produziu efeitos nos adeptos e na sociedade em geral, a iconografia e produções literárias das décadas seguintes ao surgimento da Umbanda, ainda debatiam a moralidade e a validade de se trabalhar com Exú (já no sentido dos trabalhos mediúnicos), muitos ainda alegavam seu caráter maligno e creditavam à Quimbanda ser o terreno adequado para se trabalhar com os Exús, pelo consenso que praticavam "magia negra" conforme cita o capítulo 48 do livro "História da Umbanda no Brasil", vol. 1, de Diamantino Fernandes Trindade, neste capítulo toda a questão é abordada desde suas raízes históricas até os desdobramentos após o surgimento da Umbanda. 

Bem, nossas conclusões a respeito da demonização tanto do Orixá como das entidades relacionadas à Exú, claramente, obedecem a situações iniciadas séculos atrás e perpetuadas pelos seus opositores, simpatizantes e seguidores.
Acreditamos, para quem se interessar que existem aos montes material para estudo e analise dos contrapontos sobre a questão, pois, somente desta maneira, informando-nos, estudando e praticando as proposições trazidas pelo caboclo das Sete Encruzilhadas, conseguiremos cada vez mais, dentro da perspectiva umbandista, elevar mais e mais a importância da atuação de Exú dentro de nossos grupamentos e como reflexo em nossa sociedade. 

Agradecemos mais uma vez aos amigos leitores e aguardem nossa próxima postagem que completará esta série ! Tenham todos uma ótima semana !  
     

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