domingo, 9 de julho de 2017

Diálogo com Autores #05



Neste novo encontro, a coluna Diálogo com Autores, apresenta o Fernando ou Pirro D'Obá como também é conhecido. Idealizador do blog UTHIS!(Umbanda, Tradição; História e Sociologia). Em seu site, Pirro D'Obá, discute a Umbanda sob as perspectivas históricas, filosóficas e sociológicas, reflexões que fora dos centros acadêmicos não são tão comuns - mas que se registre, fazem uma falta danada - já que a grande maioria dos veículos de informações preocupam-se com outros teores de abordagem, fruto, sobretudo, das expectivas de seus simpáticos. 
A admiração e o respeito pelo trabalho que é desenvolvido no Uthis é profunda, a seriedade e preocupação em não banalizar os temas relacionados a Umbanda são características raras neste complexo meio que circulam os adeptos. Temos ainda, a satisfação de algumas publicações nossas comporem uma pequena parte de seu acervo. Além da nova relação de parceria entre os canais. 
Segue um diálogo leve, um pouco diferente dos demais. Leia, relaxe e principalmente relativize as informações. Nosso intuito maior, é provocar a semente da curiosidade, da crítica e da reflexão. Confira!

NMU-  Conte-nos um pouco, como foi seu início na seara umbandista? Está participando de algum grupamento no momento? Se sim, quais as atividades desempenha?
Pirro D'Obá - Eu fazia capoeira na adolescência (entre os 11 e 15 anos), e o mestre era filho de uma casa de Umbanda. Então eu e colegas do grupo participávamos com frequência de festividades de Cosme e Damião, Pretos Velhos, Ogum. Porém, era apenas um apresso que eu tinha; ficava curioso, aquela manifestação religiosa mexia muito comigo. Gostava das preleções, de quando alguém explicava algo sobre as imagens de Santo e Orixás, e a simplicidade daquilo tudo que remetia a algo mais leve em relação as religiões dos meus pais (judaísmo e Catolicismo). Depois só que fui entender que eu frequentava um terreiro misto, que trazia elementos do Candomblé e da Umbanda num mesmo cenário, era algo mágico pra mim, aquilo me fornecia um certo sentido metafísico.
Numa festa de Cosme e Damião aos 18 anos, me senti mal, e uma mulher chamada Sueli, me acolheu e me levou para perto de um Erê, e ali eu tive uma manifestação, comecei a chorar e me senti profundamente emocionado. Logo depois da festa, essa mesma mulher perguntou se não queria começar ir no terreiro dela, eles iam começar a dar um curso “gratuito” de magia e faltava apenas 1 pessoa para completar os 7 que elas iniciariam. Eu fui, e ali conheci a Umbanda Sagrada de Rubens Saraceni. A Sueli acabou falecendo, o terreiro precisou ser fechado, e eu segui com os cursos de magia até completar os 21 graus em outras instituições. Fui filho do terreiro em Guarulhos, Casa de Caridade Pai Xangô do Pai André, onde vivenciei uma Umbanda mais tradicional baseada nos ensinamentos de Zelio e Ronaldo Linares. E tenho, junto com outros irmãos, um grupo chamado Oca dos Capangueiros, onde nos reunimos de maneira mais plural para celebrar festividades em datas comemorativas da Umbanda com atendimentos e consultas. E o UThis que hoje, além de ser um site na internet, acabou virando um centro cultural onde nos reunimos para saraus, palestras, musicalidades e propagação da Umbanda como mensagem cultural e social, além claro de ser um local de atendimento caritativo umbandista.

NMU- Em seus escritos, publicados no Uthis, percebemos uma ideia muito clara de comprometimento com a qualidade dos textos. Como  nasceu a motivação pela escrita, sobretudo, de temas ligados à Umbanda? Seu espaço conta com mais colaboradores?
Pirro D'Obá- Saí muito cedo de casa, aos 18 anos estava morando só e tinha um perfil rebelde nessa época, gostava de andar na Praça da República e na Galeria do Rock em São Paulo, e ali encontrei alguns Hippies e Punks que liam muito. Eles eram bem mais velhos, não se entregaram ao sistema que vivemos e me ensinaram muito, me deram dicas literárias. Nessa época conheci Nietzsche, José Saramago, Sartre, Albert Camus, Gramsci, Foucault, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, entre outros. Foi uma mistura que me abriu inúmeros horizontes e muito cedo consegui me soltar em relação a preconceitos. Tinha uma banda de rock onde precisava escrever letras, e meu primeiro contato com a escrita foi aí, unindo literatura, rimas, e o conceito de “contra cultura” do punk rock.
Comecei a escrever sobre Umbanda só posteriormente, quando iniciei na faculdade de Sociologia e Política, onde todos os trabalhos e apresentações eu procurava pegar a Umbanda como pano de fundo para construir minha argumentação. Desses trabalhos saíram textos como “A origem da religião, o bem e o mal, e o livre arbítrio” e “Utopia Umbandista”, ensaios que percebi causarem um determinado incômodo nos professores e nos ateus que tinham aos montes em minha sala... Então decidi montar o Uthis, onde teria um espaço para expor essa mistura literária entre ciências humanas e Umbanda e que auxiliasse no meu próprio processo de empoderamento e de outros irmãos dentro da religião. Conto com o apoio de dois irmãos nesse projeto, que me auxiliam com questões tecnológicas (html), pesquisa, e seleção de conteúdo... E conto também com apoio de minha namorada que estuda comigo e me aguenta nas minhas loucuras, principalmente no processo de composição de texto rs...

NMU- Como é sua relação com os leitores? A repercussão das publicações são positivas? Em algum momento sofreu “ataques” por expressar sua opinião ou visão acerca de algum tema?
Pirro D'Obá- A relação é ótima, o projeto cresceu de uma forma que eu não esperava, o número de acessos ao site duplica a cada mês, as curtidas da página a cada dia me impressiona mais, e tudo isso sem patrocinar as plataformas como Facebook ou google. Tudo de maneira natural. Acredito que as pessoas percebem que tudo o que faço é realmente de coração, onde só abordo temas em que me sinto confortável em tratar, me policio muito para não cometer erros de pesquisa e se os cometo corro logo para ajustar. Existe uma sinergia muito gostosa com esses leitores que não buscam apenas a doutrina, a receita de uma mandinga, o significado, mas algo mais, um senso humanista e filosófico sobre a Umbanda. Já sofri ataques sim, tanto de pessoas de outras religiões como de gente da própria Umbanda. Percebo que o foco da crítica está no fato de que pro Uthis não existem limitações, procuramos fornecer ao leitor uma catarse realmente, uma epifania que seja capaz de transmutar o nível de consciência social do indivíduo tanto de maneira pessoal quanto coletiva. Isso incomoda, pois tem gente que barganha com a ignorância dos recém chegados na Umbanda, fornecem cursos de teologia umbandista, magia, de mirongas, de exus, tudo com um custo que se as pessoas tivessem senso crítico com certeza não pagariam.

NMU- A tecnologia democratiza e populariza as manifestações, nós de alguma maneira estamos aqui, provando isso. Como produtor de informação, qual sua avaliação acerca da qualidade e responsabilidades dos canais ligados a Umbanda? Reconhece em parte ou eventualmente, aqueles que reproduzem apenas com objetivo de comercialização?
Pirro D'Obá- Tem ótimos canais na internet que falam com propriedade e senso crítico hoje, o próprio canal de vocês é ótimo, me influenciou muito sobre a forma de pesquisa e exposição do conteúdo, já disse isso em outras ocasiões. O canal do Douglas Rainho (Perdido em Pensamentos) é ótimo, com a acidez necessária para fazer muita gente refletir sobre temas da espiritualidade e da Umbanda, e se desgarrarem de “tabus” que ainda permeiam nosso meio. Temos intelectuais com Sid Soares e Pablo Araújo que em suas páginas do Facebook estão sempre trazendo uma reflexão pertinente e muito profunda a respeito de questões existenciais do umbandista e da espiritualidade. O canal do Pai Paulo Ludogero, eu admiro demais também, de maneira simples aborda temas complexos e sem aquele folhetim demagogo que se esquiva de temas realmente polêmicos, o cara vai pro embate mesmo. Entre muitos outros, tem canais ótimos. Porém temos canais com uma outra tônica que não vejo de maneira tão positiva assim, tem gente que claramente está nesse jogo pela rentabilidade financeira, dizem que o dinheiro é pra custear o “EAD”, que é pra pagar o funcionário, mas a lucratividade está explícita em diversos pontos.

NMU- Ainda na questão tecnológica, como enxerga os cursos de formação umbandista? Teve experiências em algum?
Pirro D'Obá- Ah sim. Curso de Umbanda “pago” (seja de qual segmento for) pra mim é anti ético. E tem canais aos montes fazendo isso. Adotam a estratégia de atrair neófitos com mecanismos das mídias sociais, com mensagens de que ali a caridade, o amor e o bom senso imperam, e de repente começam com aquele inchaço de anúncios patrocinados de cursos de Umbanda em suas mais variadas ramificações. Isso está errado, e tem gente enriquecendo sim com isso, e falo com propriedade, pois sei que muitos que estão nessa vida pararam com seus trabalhos formais para viverem de renda com esses cursos (e não vivem mal não hein). E olha, deixo explícito que não sou contra cursos não, estudar é importante demais. O que encaro como anti ético é cobrarem mensalidade por um conteúdo intrinsecamente religioso, que pode-se doar de graça e contribuir para expansão de consciência de todos (inclusive de quem não tem dinheiro para custear um curso desse). Os cursos ligados diretamente a Umbanda que fiz sempre foram presenciais e gratuito, inclusive os de magia ligados a doutrina do Rubens Saraceni. Curso pago tem que ser ligado a outras linhas como: mentoria, mediunidade, empreendedorismo, espiritualidade, tarot, entre outros, mas vender cursos de Umbanda, pegar o conteúdo de um livro e transferir para um vídeo e vender como produto manufaturado, é algo feio que só funciona realmente com neófitos. Se analisarmos veremos que umbandistas mais calejados preferem montar um grupo de estudos, disponibilizar o conteúdo em plataformas gratuitas na internet. Cobrar é errado, e sou (como muitos outros irmãos) um fundamentalista em relação a esse assunto, escrevi um texto chamado “Mídias Sociais e a Umbanda” onde retrato sobre esse tema, uma espécie de teologia da prosperidade protestante tentando se enraizar na Umbanda, que é uma religião avessa a esses conceitos.
Eu mesmo fui convidado a dar curso de magia do fogo numa instituição. Quando vi que eles cobrariam R$120,00 do iniciado eu pulei fora. Como cobrar de uma pessoa por um conteúdo que a mãe Sueli me forneceu gratuitamente? Não, prefiro iniciar pessoas mais próximas, sem esse cunho monetário... Vender religião, doutrina, códigos, isso está errado. Me deram a ideia de montar um curso de teologia de Umbanda no Uthis, também pulei fora. Depois de muito pensar, preferi dar aula de filosofia mesmo que é a minha praia, minha formação acadêmica me permite a isso, onde em nenhuma aula falo de Umbanda diretamente. Pois sobre a religião umbandista, eu falo e propago conteúdo de graça no Uthis.  

NMU- Levando-se em consideração as diferentes maneiras e  ritos presentes nas manifestações umbandistas, geralmente fruto da formação cultural de seu dirigente e das entidades “Dirigentes”. Como você avalia essa realidade de múltiplas facetas tão própria da Umbanda? É a favor que se padronize os cultos, como já tentaram algumas correntes dentro do movimento?
Pirro D'Obá- Não sou a favor da padronização de ritos e cultos. Acredito muito na lei dos padrões vibratórios que se atraem. Meu padrão vibratório de repente pode me levar para uma casa de Umbandomblé e em determinado momento eu me sentir melhor numa outra casa de Umbanda Tradicional. Temos que valorizar essa pluralidade, e esse livre trânsito. Acredito que o fato do ser humano ser uma espécie que não sabe lidar essencialmente com a pluralidade, faz surgir movimentos de unificações que tentam simplificar o que é “complexo”.  Porém, sistema de crenças é complexo mesmo, sempre foi, qualquer cientista social sabe que ao estudar uma religião achará processos delicados, ramificações, bifurcações, paralelos. Acho que temos de nos preocupar em melhorar a metodologia de análise de nossa pluralidade religiosa; tentar simplesmente unificar ao meu ver é negligenciar isso. Uma pessoa que se apresenta como sacerdote precisa ser um teólogo antes de tudo, que estude desde religiões védicas, habraamicas, xamânicas, até as ramificações de matriz afro no Brasil (e no mundo), espiritualidade e sequentemente as “Umbandas dentro da Umbanda” (tem um artigo ótimo do Renato Guimarães sobre isso).

NMU- No seu texto “As opiniões e a nossa Essência”(excelente por sinal), você propõe ao leitor uma reflexão quanto a importância de buscarmos algo para além daquilo que o mundo espera que sejamos. Um exercício fundamental decorrente de uma visão “desnudada”- fazendo referencia ao termo utilizado – do mundo dos estereótipos. Em sua opinião, quais as maiores barreiras para que as pessoas se encontrem neste sentido? Não seria necessário que nós tivéssemos pensamentos reflexivos e críticos para esse despertar? E disto isso, teríamos também as opiniões sem nos importarmos com as consequências delas?
Pirro D'Obá- Para Carl Gustav Jung, na modernidade nós aprendemos que a razão e seu pleno uso nos traria uma sensação de controle a respeito das coisas e da nossa própria vida. Obviamente esse conceito (que imperou entre os séculos 17 e 19) não deu muito certo, tivemos avanços tecnológicos sim, mas o ser humano continuou com as mesmas ranhuras da espécie, que nos atormenta desde eras ancestrais. Jung diz que essas ranhuras se potencializaram com a modernidade, pois ao querermos utilizar a razão deixamos outras camadas de nossa psique em desuso ou pouco desenvolvidas. Queremos ser conscientes, lógicos, pragmáticos, porém, nessa ânsia adoecemos, perdemos a conexão com o que é nosso “em totalidade”. Muitas das tormentas contemporâneas surgem por conta disso. Não valorizamos nossos sonhos, nossas intuições, nossos presságios, nossas sensações, tudo isso por eleger a razão como mantenedora de uma ordem utópica das coisas. Tudo o que é racional depende de terceiros, depende da nossa convivência com os outros, dos livros que lemos, das aulas que assistimos, da educação que tivemos, mas, e o resto? Vemos muita gente com senso crítico apurado, que leram inúmeros livros, tem ideologias e convicções convincentes, mas que ao chegarmos perto podemos perceber que estão deprimidas, seguiram a ordem lógica das coisas e esqueceram-se de si, esqueceram da arte, da poesia, de exercer outras potências subjetivas, da alma. Penso que é necessário não cairmos nessa cilada da racionalidade. A razão é apenas uma das camadas de nossa psique que podemos utilizar, mas a sensação, o sentimento e a intuição são importantes também, nos auxiliam a desnudar. As opiniões de terceiros não teriam tanto impacto sobre o nosso ser se buscássemos essa amplitude. A capacidade de fazermos o bem para o próximo não surge apenas na educação racional, exercitar nossa sensibilidade traz a capacidade de ter alteridade também com o próximo. Moralidade e ética são absorvíveis ao ser humano em seus diversos canais psíquicos e simbólicos e não só pela razão, mas ao colocarmos apenas ela como premissa de vida, podemos nos “rasurar” achando que estamos nos desenvolvendo, dando importância demais para o externo quando que na realidade temos um oceano dentro de nós clamando para ser ouvido.   

NMU- Trazendo a reflexão para outro rumo, aquele ligado ao ser histórico e social que todos nós, invariavelmente, somos. Outro texto nos chamou muita atenção “ A Umbanda não se adapta ao umbandista; é o umbandista que se reforma com ela”. Há muita clareza em sua crítica sobre os “empreendedores” da fé que, infelizmente, também estão na Umbanda. Ao que relaciona o sucesso deles? Ausência de criticidade dos fiéis ou extrema habilidade dos que conduzem?
Pirro D'Obá- Tem uma passagem que diz: "...A quantidade de Charlatães vendendo "Deus" não me assusta. O que me assusta é a quantidade de pessoas que se dispõem a comprar o "Deus" deles..."
O umbandista contemporâneo, que tem mais anos de chão; esse cara não cai nessa lorota mercantilista. Quem cai nesses merchans que deixam a Umbanda com um ar mercadológico é o novato, é a pessoa que está chegando agora que esses mercantilistas estudam muito bem para ter como um público alvo. Não à toa eles patrocinam seus anúncios na internet vendendo curso de Umbanda a torto e a direito. O umbandista “macaco velho” não se inscreve, até porque a vida dele se oxigena ao ir no terreiro, estudar com a comunidade, ter uma vida social baseada nos seus semelhantes, em ver o doente curado, o desempregado empregado, e não em fazer o outro ficar rico a custa da minha busca espiritual.Com os novatos, os mercantilistas pintam e bordam, atraem, seduzem, fornecem o curso e no fim das contas aquele mesmo novato percebe que o conteúdo que ele pagou para adquirir está (e sempre esteve) disponível em outros canais na própria internet e de maneira GRATUITA. Umbanda não precisa de professor, a Umbanda precisa de umbandista. Um umbandista compromissado com aprendizado explora a internet para que seu conteúdo chegue em camadas diversas, auxiliando no aprimoramento da religião e dos adeptos. Porém, tem quem cobre e tem quem pague, não existe oferta sem demanda.

NMU-   O olhar crítico e a reflexão, são características indissociáveis da leitura e pesquisa. Quanto aos livros e autores, existe algum que não recomendaria? Por quais motivos?
Pirro D'Obá- Olha, até em leituras negativas aprendemos algo, temos ali a oportunidade de lidar com uma perspectiva contrária à nossa visão de mundo, e dessa forma praticar a dialética em seus 3 passos: a tese, a antítese e a síntese. Mesmos as leituras que eu não gostei eu recomendaria por esse exercício dialético que nos trazem.

NMU- Poderia, como já fizeram outros entrevistados, registrar uma lista “TOP 10” de livros umbandistas?
O espiritismo, a magia e as 7 linhas de Umbanda – Leal de Souza
Malungo - Decodificação da Umbanda – Dilson Bento
Umbanda de Todos Nós – Matta e Silva
Umbanda e o Sentido da Vida – Alexandre Cumino
Mitologia dos Orixás – Reginaldo Prandi
Umbanda e o Meio Ambiente – Giovani Martins
História da Umbanda no Brasil – Diamantino Trindade
No Mundo das Umbandas – Site ótimo que me serve como livro
Textos de Sid Soares - Que me serve como livro
Textos de Pablo Araújo - Que me serve como livro

NMU- Agradecemos a oportunidade de proporcionar ao blog e aos leitores que nos acompanham, a possibilidade de entendermos mais aspectos que fazem umbandistas, como você, e por todo o país, pesquisarem e escreverem sobre a religião. Neste último momento oferecemos espaço, sem qualquer limitação, para deixar um registro aos nossos simpáticos e amigos leitores...  
Pirro D'Obá- Primeiramente agradeço o espaço para troca de ideias. Isso é necessário.
A Umbanda não precisa de uma unificação dos seus cultos, precisa sim de união dos indivíduos que praticam e falam sobre os mais variados tipos de cultos, com respeito, serenidade. Dessa forma a pluralidade se integra, gera ideias, reflexões, e isso que é o mais bacana, saber lidar com os caminhos da liberdade e não buscar amarrar a liberdade em unificações que ao meu ver mais engessam do que produzem.
A Umbanda é ela mesma, não precisa mudar e nem se adaptar aos novos tempos, pois quem está atrás de evolução somos nós seres humanos, a Umbanda nos ajuda nesse processo. Como cada um toca seu ritual é uma questão de doutrina e estudo, não é meia dúzia de pessoas com um documento na mão que dirão o que é ou deixa de ser a “prática de Umbanda”. É preferível lermos intelectuais e estudiosos no assunto, que respeitam a diversidade. Dialogar sobre a Umbanda é ótimo! Crescer tendo a Umbanda como Mãe e Parceira é maravilhoso.Que essa revolução digital traga muito mais conquistas para nós umbandistas, que a Umbanda seja respeitada socialmente e que o preconceito seja um assunto passado, essa é a utopia que sonhamos.
Sou grato a cada pessoa que acompanha nosso trabalho no Uthis e que Oxalá abençoe a todos.
Um grande abraço a você Felipe, que admiro muito!

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Fascinação Religiosa




Fascinação, fanatismo, deslumbramento, encantamento, sedução, admiração e atração são algumas das palavras que estão sempre atreladas seja por elos de aplicação ou significação. Pertencem, também, ao universo daqueles que provocam e incitam o imaginário popular nos diversos meios, inclusive o religioso. 
Tratar a temática do fanatismo dentro das religiões não é tão difícil, porém, uma análise macro-globalizada com referências sócio-históricas sobre seus efeitos, demandam responsabilidade, embasamento teórico e técnico. Ainda sim, jornais e sites quase que diariamente noticiam conflitos, guerras, diásporas e enfrentamentos geopolíticos provocados pela fascinação das posições contrárias, a medida que cada grupo aponta um distinto interesse, calcados em definições econômicas e culturais que direcionam seus objetivos centrais: A dominação e a proposta de salvação.

Apesar de estarmos em um canal exclusivamente umbandista, não pretendemos realizar uma análise sobre o olhar que as demais religiões têm sobre a Umbanda. Também não devemos sempre que pudermos, assumir o papel de vítimas oprimidas, apesar de pertencermos à uma religião eminentemente de minorias. 
A reflexão que propomos, parte da leitura da obra de P.J Pereira, A Mãe a Filha e o Espírito da Santa, um ambiente ficcional que retrata a biografia da personagem "Pilar", intrigante membro da história desenvolvida na trilogia "Deuses de dois Mundos". Com uma trama envolvente, que recomendamos a leitura, o autor caminha no universo das tradições religiosas e populares nordestinas, acrescentada de modelos pentecostais, filosofias orientais e empreendedorismo comercial. Sua personagem, atravessa um mar de dificuldades desde a infância, pois, já nasceu em meio à um mito. Seria ela uma menina anunciada, um espírito santo reencarnando na terra. Prato cheio para virar profeta!


Entre os diversos aspectos que o livro aborda, refletimos, sobretudo, acerca de falsos profetas arrebatadores de multidões cegas ao óbvio e entregues por um ato de fé nada normal. 
Nos questionamos como esses "artistas" da fé conseguem persuadir pessoas não somente à segui-las, tampouco ofertando-lhes alguma quantia substanciosa retirada muitas vezes de seus próprios sustentos, mas, sim, como essas marionetes dedicam a vida por outras pessoas, supostamente dotadas de poderes e virtudes "divinas"? Aí o leitor responde: Coisa de livro, filme ou novela. Isso não existe. Para nosso espanto existe sim, é tão grave que está entranhado em nossa sociedade e para piorar está quase sendo banalizado. A exploração da fé, não se limita a persuadir apenas os entendimentos sobre o que é "Sagrado", vai muito mais além, roubam-lhe a vida, os pensamentos, a capacidade crítica de interpretar fatos. Roubam-lhes as almas.

Para que tudo isso ocorra, o profeta necessita de experimentação, treino, formação, talento e muita dedicação. Deve produzir feitos inéditos ou reeditar os grandes da história humana. Garantir a felicidade plena "tanto na terra como no céu". E quando seu discípulo desgarrar-se, deve produzir profecias maléficas a fim de amedrontar outros motivados ao desmonte. Quando o profeta cresce, ou ganha a projeção para fama, a partir de seu empreendedorismo, produz ramificações ou filiações, onde, ele acaba tornando-se CEO da fé. E isso amigos leitores, não é uma característica deste ou daquele setor. Infelizmente não. As promessas por obras divinas, verdades concretas e imutáveis estão em todos os meios, visto que, é eminentemente humana. Pessoas com aptidões, habilidades e talentos para extravasar procuram a industria da fé, ligada ao referencial do senso comum, meios para deixarem o anonimato e a pobreza.

E como combatemos isso? Deixamos a fé? Deixamos de frequentar os círculos religiosos? Deixamos a Umbanda? Entendemos que não! Definitivamente. Temos sim por bom senso e obrigação que nos atentarmos, estudarmos, cultivarmos os espaços e meios que o bom debate (jamais confronto) exista. Pois, somente através do desenvolvimento de características que preservem a análise e a avaliação sobre nossa própria caminhada, podemos entender o entorno. É urgente a reflexão dos abusos cometidos em todos os níveis, sobretudo na religião, a medida que ela ocupa significativa importância nas relações sociais, econômicas, políticas e educacionais. 
Cultivarmos nossa fé não necessariamente é sinônimo de incompatibilidade social, tampouco deve ser o da dominação e salvação. 
Pensemos nisso, é urgente!               

Oxalá nos acompanhe ! Bom fim de semana !
                    
              

domingo, 21 de maio de 2017

COLUNA DO EDITOR - 05: A primeira vez a gente nunca esquece !


Amigos e leitores. 

Navegando pela fanpage do blog, a fim de atualizar algumas postagens e responder alguns comentários, realizei, um pequeno e rápido passeio por algumas timelines de outros blogs parceiros. Me deparei, com o que talvez seja um dos maiores clichês, dentro dos círculos que se publicam Umbanda e assuntos afins "A primeira vez agente nunca esquece". Foi então que pensei: Como ainda não escrevi minha própria experiência, como novo visitante em um terreiro ?!? 
Ainda tenho boa memória, sobretudo, neste caso específico, ainda são vívidas as lembranças do evento e as circunstâncias sobre as quais reforçaram seu acontecimento. Me reservo o direito de resguardar as identidades das pessoas envolvidas, do local, e das entidades espirituais que nos assistiram naquela dia...


A PRIMEIRA VEZ A GENTE NUNCA ESQUECE ! 

Devo começar o relato explicando ao leitor que minha experiência regular como frequentador de terreiro iniciou-se ali por volta do ano de 2003. Entretanto, é necessário esclarecer que até essa época, eu já havia tido contatos esporádicos com médiuns em ação, para ser sincero, desde a infância,  com "entidades" em trabalhos "familiares", pois, tenho na família de minha mãe e também na de meu pai, tias com mediunidade ostensiva de incorporação, e vez ou outra recebiam suas entidades em casa mesmo. No mais, por pertencer à um grupo familiar grande e diverso, contudo, "tradicional", sempre fomos também católicos "não praticantes", mesmo que muitos,  como, por exemplo, minha mãe não admitam ou se quer queiram entender qual o significado de tal condição.  
Voltando ao acontecimento em questão, o ano era 2003, estávamos ali próximos do inverno, em meio ao outono. Nesta época eu ainda cursava o ensino médio, último ano, portanto, completaria dezoito anos em meses. Fase muito turbulenta essa tal de adolescência, muitas confusões, desencontros, dúvidas e sonhos. Não posso dizer que tive a melhor, tampouco a pior das experiências, tive apenas a minha. Recordo que nesta época desentendimentos familiares, o falecimento do meu pai (que ocorrera quatro anos antes), e muita presunção, típica dos adolescentes e supervalorizada pelo meu perfil um tanto quanto autocentrado, me faziam passar instabilidades, desentendimentos e desarranjos. Nunca tive problemas com a marginalidade ou com o uso de drogas ilícitas, somente mesmo desorientações de fundos emocionais e familiares. Vivia também um momento cético quanto a questão espiritual do ser humano, os últimos contatos que houvera tido com espíritos (nas tais sessões familiares) , não foram, naquele momento, segundo minha ótica "convencedores" de alguma verdade, se esforçavam demais para se mostrarem convincentes.

Um primo, com quem à época tinha um contato diário e compartilhávamos o mesmo círculo de amizades, incluindo também outros primos e amigos em comum, já havia me convidado para conhecer um centro, no bairro vizinho, próximo de onde morávamos, que ocorriam trabalhos de mesa branca e Umbanda. Eu sempre refutava, negava o convite e, ainda travava com ele diversas discussões sobre a real necessidade de irmos a um lugar desses para buscar auxilio nas resoluções de problemas, em determinadas ordens. Toda a família deste primo conhecia o local já algum tempo, e ele, sempre que podia, durante nossas conversas me alertava sobre o tal terreiro. Após um desentendimento sério em minha casa, decidi, em certa oportunidade, voltar atrás naquelas passageiras e confusas convicções e acabei aceitando o convite. Ele me disse: "Combinado então, vamos na próxima quarta-feira. Você vai ver, vai gostar". Vale ressaltar que até hoje a casa funciona com trabalhos às quartas feiras. 
Não me lembro com exatidão em que dia combinamos irmos juntos ao local, lembro-me apenas, dos dias que antecederam serem os responsáveis por um misto de sensações que variavam de dúvidas, receios, deboches,  mas sobretudo, uma ansiosa expectativa.
Durante a semana, nada mais restava a um jovem estudante que não trabalhava regularmente, a não ser ir para escola. No dia do evento, me recordo com nítidas imagens, um encontro que tive no ônibus de volta para casa após as aulas, com o irmão do primo com quem eu iria no centro. Portanto outro primo também. Em algum momento de nosso bate papo, ele me disse: " Meu irmão falou que hoje, vocês vão lá né?". Continuou: "Eu queria muito ir também, porém, meu compromisso impede, assim que der vou arrumar um tempo para ir. Lá é bem bacana...". Eu, do alto de minhas certezas e esbanjando minha alto confiança, respondi: "É combinamos sim. Vou lá com ele, ver esse lugar presta mesmo...". Ainda continuamos, durante toda a viagem conversando sobre os trabalhos do centro e outros assuntos. Recortei este momento porque entendo, ser o ponto fundamental no desenrolar dos fatos.

Passado às dezenove horas estávamos no local, meu primo como de habito(risos!), havia se atrasado um pouco e ao chegarmos, percebemos que o trabalho estava aberto. Lugar humilde, pequeno, que não ostentava nenhum luxo a não ser, mais ou menos umas vinte e cinco pessoas que aguardavam para serem atendidas, em sua maioria de pé e até para fora da única porta que a sala de três por quatro metros oferecia. No centro da sala, uma mesa com toalha branca tomava boa parte do espaço, a imagem de São Francisco, um crucifixo, uma grande bíblia entre outros objetos adornavam a "base" de onde se dirigiam os trabalhos. Chegamos a tempo de escutarmos parte da palestra de uma senhora que presidia a mesa dos trabalhos, tratava-se de uma incorporação de um de seus mentores, posteriormente explicado por meu primo. Os atendimentos seriam feitos pela linha de pretos-velhos naquele dia, apesar de uma visão generalista sobre as manifestações, não seria a primeira vez que eu falaria com um. Todos posicionados, as manifestações começaram ocorrer, eram apenas três senhoras que trabalhavam, nós estávamos em pé na direção da porta, que com dificuldades tentávamos manter fechada a pedido das próprias entidades. Havia um revezamento espontâneo entre as pessoas que se dirigiam entre os atendimentos, nada de senhas ou filas por médiuns, apenas bom senso e um pouco de paciência. 
Durante todo o período em que se transcorreram os atendimentos, percebi, o preto-velho incorporado na dirigente da casa, mesmo durante os passes que ministrava, me encarando e vez ou outra soltando aqueles característicos risos de canto de boca, como quem dissesse ou se fizesse entender...(é hoje!). Protestei da maneira mais discreta que pude ao meu guia (primo), sendo imediatamente alertado que aquele não era o momento.

Quando minha vez se anunciou, diria, aliás, se oportunizou, a primeira conquista havia sido completada, consegui, em meio ao "jogo" de revezamento que as pessoas faziam entre os médiuns incorporados, me posicionar para tomar o passe com a senhora mais discreta que havia ali, seu banquinho de madeira o mais baixinho e a localização em um dos cantos do pequeno salão, permitiriam total discrição e até uma certa privacidade. Ao sentar-me, como segue o costume daqueles que pela primeira vez vão à qualquer terreiro, minha reação foi a mudez, então, uma simpática "Vó" me saudou: (meu relato não fornecerá a linguagem usual da linha de pretos-velhos, prefiro, deixar isso a cargo do conhecimento e vivência de cada leitor). 
- Boa noite meu filho! Como vão as coisas? 
Respondi, meio que sem jeito e sem rodeios: - Bem.
- Ah certo! Me dê licença de benzer você. 
Após alguns instantes, coisa de minuto, findando os movimentos com as mãos e acrescentando algumas risadas, ela tornou a falar: 
- Vejo que o rapaz é novo aqui né? Pois bem, gostaria de lhe perguntar uma coisa, por acaso esta casa está ao alcance do seu agrado meu filho? Está gostando do que está vendo e sentindo aqui? 
Minha reação, na verdade foi de completa perplexidade. Como uma senhora que nunca havia visto, tampouco conversado, estava incorporada de uma outra consciência e me fazia perguntas que remetiam toda a desconfiança e descrença que os dias anteriores à minha visita aquela casa haviam povoado meu imaginário e minhas conversas. Me parecia que ela havia escutado quando, no episódio do ônibus eu falara ao outro primo que iria ver como "aquilo" funcionava. Sem esperar qualquer reação ou resposta de minha parte, a preta-velha concluiu:
- Fazemos o seguinte. Já lhe dei um passe, agora, volte e pense se realmente gostou daqui, teremos outros trabalhos, caso retorne para conversarmos mais.
Agradeci, já que foi uma das poucas coisas que consegui fazer, levantei e aguardei em silêncio o encerramento das atividades aquele dia. Os fatos que sucederam esta primeira visita se confundem hoje com minha história de vida. Prefiro, guardá-las em minha memória e compartilhar apenas com aqueles que me acompanham no convívio diário...  

Talvez, alguns leitores possam me confundir e interpretar que essa passagem tente mostrar ou até mesmo transmitir, uma prova sobre alguma coisa, como se os Guias de Umbanda fossem gurus da adivinhação e da manifestação dos desejos humanos. Entendo que essas interpretações não conseguiram identificar o que realmente aconteceu, pois, disso dependia-se que cada leitor vivesse e contextualizasse as sensações e acontecimentos em torno do fato, ou, talvez, não consigam atingir as expectativas de interpretação pela inabilidade deste Editor em transcrever com mínima semelhança a sequência dos acontecidos.
Por isso, chamo atenção para outra perspectiva. Naquele momento nada me convencia não por falta de acreditar em algo, mas, com toda certeza, por me achar mais esperto e capaz, por duvidar de tudo e todos e não permitir nem admitir que as vezes um pouco de humildade e prudência são fundamentais para a construção de uma postura construtiva, sobretudo, quando, emocionalmente, precisamos nos ajustar. Com isto, insisto! Não promovemos os espíritos que nos assistem, como mentores de feitos inacreditáveis que resolvem tudo ao nosso redor. Entendamos que na maioria das vezes, nós mesmos, precisamos apenas de uma palavra ou uma pista para sozinhos encontrarmos os meios que buscamos.  

Oxalá nos abençoe!

O Editor.