domingo, 21 de maio de 2017

COLUNA DO EDITOR - 05: A primeira vez a gente nunca esquece !


Amigos e leitores. 

Navegando pela fanpage do blog, a fim de atualizar algumas postagens e responder alguns comentários, realizei, um pequeno e rápido passeio por algumas timelines de outros blogs parceiros. Me deparei, com o que talvez seja um dos maiores clichês, dentro dos círculos que se publicam Umbanda e assuntos afins "A primeira vez agente nunca esquece". Foi então que pensei: Como ainda não escrevi minha própria experiência, como novo visitante em um terreiro ?!? 
Ainda tenho boa memória, sobretudo, neste caso específico, ainda são vívidas as lembranças do evento e as circunstâncias sobre as quais reforçaram seu acontecimento. Me reservo o direito de resguardar as identidades das pessoas envolvidas, do local, e das entidades espirituais que nos assistiram naquela dia...


A PRIMEIRA VEZ A GENTE NUNCA ESQUECE ! 

Devo começar o relato explicando ao leitor que minha experiência regular como frequentador de terreiro iniciou-se ali por volta do ano de 2003. Entretanto, é necessário esclarecer que até essa época, eu já havia tido contatos esporádicos com médiuns em ação, para ser sincero, desde a infância,  com "entidades" em trabalhos "familiares", pois, tenho na família de minha mãe e também na de meu pai, tias com mediunidade ostensiva de incorporação, e vez ou outra recebiam suas entidades em casa mesmo. No mais, por pertencer à um grupo familiar grande e diverso, contudo, "tradicional", sempre fomos também católicos "não praticantes", mesmo que muitos,  como, por exemplo, minha mãe não admitam ou se quer queiram entender qual o significado de tal condição.  
Voltando ao acontecimento em questão, o ano era 2003, estávamos ali próximos do inverno, em meio ao outono. Nesta época eu ainda cursava o ensino médio, último ano, portanto, completaria dezoito anos em meses. Fase muito turbulenta essa tal de adolescência, muitas confusões, desencontros, dúvidas e sonhos. Não posso dizer que tive a melhor, tampouco a pior das experiências, tive apenas a minha. Recordo que nesta época desentendimentos familiares, o falecimento do meu pai (que ocorrera quatro anos antes), e muita presunção, típica dos adolescentes e supervalorizada pelo meu perfil um tanto quanto autocentrado, me faziam passar instabilidades, desentendimentos e desarranjos. Nunca tive problemas com a marginalidade ou com o uso de drogas ilícitas, somente mesmo desorientações de fundos emocionais e familiares. Vivia também um momento cético quanto a questão espiritual do ser humano, os últimos contatos que houvera tido com espíritos (nas tais sessões familiares) , não foram, naquele momento, segundo minha ótica "convencedores" de alguma verdade, se esforçavam demais para se mostrarem convincentes.

Um primo, com quem à época tinha um contato diário e compartilhávamos o mesmo círculo de amizades, incluindo também outros primos e amigos em comum, já havia me convidado para conhecer um centro, no bairro vizinho, próximo de onde morávamos, que ocorriam trabalhos de mesa branca e Umbanda. Eu sempre refutava, negava o convite e, ainda travava com ele diversas discussões sobre a real necessidade de irmos a um lugar desses para buscar auxilio nas resoluções de problemas, em determinadas ordens. Toda a família deste primo conhecia o local já algum tempo, e ele, sempre que podia, durante nossas conversas me alertava sobre o tal terreiro. Após um desentendimento sério em minha casa, decidi, em certa oportunidade, voltar atrás naquelas passageiras e confusas convicções e acabei aceitando o convite. Ele me disse: "Combinado então, vamos na próxima quarta-feira. Você vai ver, vai gostar". Vale ressaltar que até hoje a casa funciona com trabalhos às quartas feiras. 
Não me lembro com exatidão em que dia combinamos irmos juntos ao local, lembro-me apenas, dos dias que antecederam serem os responsáveis por um misto de sensações que variavam de dúvidas, receios, deboches,  mas sobretudo, uma ansiosa expectativa.
Durante a semana, nada mais restava a um jovem estudante que não trabalhava regularmente, a não ser ir para escola. No dia do evento, me recordo com nítidas imagens, um encontro que tive no ônibus de volta para casa após as aulas, com o irmão do primo com quem eu iria no centro. Portanto outro primo também. Em algum momento de nosso bate papo, ele me disse: " Meu irmão falou que hoje, vocês vão lá né?". Continuou: "Eu queria muito ir também, porém, meu compromisso impede, assim que der vou arrumar um tempo para ir. Lá é bem bacana...". Eu, do alto de minhas certezas e esbanjando minha alto confiança, respondi: "É combinamos sim. Vou lá com ele, ver esse lugar presta mesmo...". Ainda continuamos, durante toda a viagem conversando sobre os trabalhos do centro e outros assuntos. Recortei este momento porque entendo, ser o ponto fundamental no desenrolar dos fatos.

Passado às dezenove horas estávamos no local, meu primo como de habito(risos!), havia se atrasado um pouco e ao chegarmos, percebemos que o trabalho estava aberto. Lugar humilde, pequeno, que não ostentava nenhum luxo a não ser, mais ou menos umas vinte e cinco pessoas que aguardavam para serem atendidas, em sua maioria de pé e até para fora da única porta que a sala de três por quatro metros oferecia. No centro da sala, uma mesa com toalha branca tomava boa parte do espaço, a imagem de São Francisco, um crucifixo, uma grande bíblia entre outros objetos adornavam a "base" de onde se dirigiam os trabalhos. Chegamos a tempo de escutarmos parte da palestra de uma senhora que presidia a mesa dos trabalhos, tratava-se de uma incorporação de um de seus mentores, posteriormente explicado por meu primo. Os atendimentos seriam feitos pela linha de pretos-velhos naquele dia, apesar de uma visão generalista sobre as manifestações, não seria a primeira vez que eu falaria com um. Todos posicionados, as manifestações começaram ocorrer, eram apenas três senhoras que trabalhavam, nós estávamos em pé na direção da porta, que com dificuldades tentávamos manter fechada a pedido das próprias entidades. Havia um revezamento espontâneo entre as pessoas que se dirigiam entre os atendimentos, nada de senhas ou filas por médiuns, apenas bom senso e um pouco de paciência. 
Durante todo o período em que se transcorreram os atendimentos, percebi, o preto-velho incorporado na dirigente da casa, mesmo durante os passes que ministrava, me encarando e vez ou outra soltando aqueles característicos risos de canto de boca, como quem dissesse ou se fizesse entender...(é hoje!). Protestei da maneira mais discreta que pude ao meu guia (primo), sendo imediatamente alertado que aquele não era o momento.

Quando minha vez se anunciou, diria, aliás, se oportunizou, a primeira conquista havia sido completada, consegui, em meio ao "jogo" de revezamento que as pessoas faziam entre os médiuns incorporados, me posicionar para tomar o passe com a senhora mais discreta que havia ali, seu banquinho de madeira o mais baixinho e a localização em um dos cantos do pequeno salão, permitiriam total discrição e até uma certa privacidade. Ao sentar-me, como segue o costume daqueles que pela primeira vez vão à qualquer terreiro, minha reação foi a mudez, então, uma simpática "Vó" me saudou: (meu relato não fornecerá a linguagem usual da linha de pretos-velhos, prefiro, deixar isso a cargo do conhecimento e vivência de cada leitor). 
- Boa noite meu filho! Como vão as coisas? 
Respondi, meio que sem jeito e sem rodeios: - Bem.
- Ah certo! Me dê licença de benzer você. 
Após alguns instantes, coisa de minuto, findando os movimentos com as mãos e acrescentando algumas risadas, ela tornou a falar: 
- Vejo que o rapaz é novo aqui né? Pois bem, gostaria de lhe perguntar uma coisa, por acaso esta casa está ao alcance do seu agrado meu filho? Está gostando do que está vendo e sentindo aqui? 
Minha reação, na verdade foi de completa perplexidade. Como uma senhora que nunca havia visto, tampouco conversado, estava incorporada de uma outra consciência e me fazia perguntas que remetiam toda a desconfiança e descrença que os dias anteriores à minha visita aquela casa haviam povoado meu imaginário e minhas conversas. Me parecia que ela havia escutado quando, no episódio do ônibus eu falara ao outro primo que iria ver como "aquilo" funcionava. Sem esperar qualquer reação ou resposta de minha parte, a preta-velha concluiu:
- Fazemos o seguinte. Já lhe dei um passe, agora, volte e pense se realmente gostou daqui, teremos outros trabalhos, caso retorne para conversarmos mais.
Agradeci, já que foi uma das poucas coisas que consegui fazer, levantei e aguardei em silêncio o encerramento das atividades aquele dia. Os fatos que sucederam esta primeira visita se confundem hoje com minha história de vida. Prefiro, guardá-las em minha memória e compartilhar apenas com aqueles que me acompanham no convívio diário...  

Talvez, alguns leitores possam me confundir e interpretar que essa passagem tente mostrar ou até mesmo transmitir, uma prova sobre alguma coisa, como se os Guias de Umbanda fossem gurus da adivinhação e da manifestação dos desejos humanos. Entendo que essas interpretações não conseguiram identificar o que realmente aconteceu, pois, disso dependia-se que cada leitor vivesse e contextualizasse as sensações e acontecimentos em torno do fato, ou, talvez, não consigam atingir as expectativas de interpretação pela inabilidade deste Editor em transcrever com mínima semelhança a sequência dos acontecidos.
Por isso, chamo atenção para outra perspectiva. Naquele momento nada me convencia não por falta de acreditar em algo, mas, com toda certeza, por me achar mais esperto e capaz, por duvidar de tudo e todos e não permitir nem admitir que as vezes um pouco de humildade e prudência são fundamentais para a construção de uma postura construtiva, sobretudo, quando, emocionalmente, precisamos nos ajustar. Com isto, insisto! Não promovemos os espíritos que nos assistem, como mentores de feitos inacreditáveis que resolvem tudo ao nosso redor. Entendamos que na maioria das vezes, nós mesmos, precisamos apenas de uma palavra ou uma pista para sozinhos encontrarmos os meios que buscamos.  

Oxalá nos abençoe!

O Editor.                       

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Diálogo com Autores#04


Olá amigos e leitores!
É com grande alegria que anunciamos mais um Diálogo com Autores, coluna que foi bem recebida pelos produtores de conteúdos espiritualistas e umbandistas e que só tem a crescer cada vez mais, nosso convidado da vez é o médium, sacerdote e escritor André Cozta
Gaúcho de Porto Alegre, seu envolvimento com a Umbanda acontece desde a infância, pois, seu pai foi feito no terreiro "Casa de Pai Thomé e Ogum Beira Mar" de seu avô, era dirigente em um terreiro nos fundos de sua casa. Sacerdote de Umbanda Sagrada (corrente umbandista com referências ao trabalho do sacerdote e escritor Rubens Saraceni), reside no estado do Rio de Janeiro, onde, além de atuar nos trabalhos, dedica-se ao exercício de escrita e à prática da "Magia Divina",como "Mago Iniciador", já abriu 20 dos mais de 30 graus deixados pelo seu Mestre Rubens Saraceni, pelo Colégio Tradição de Magia Divina.   

Dos livros cortesias que recebemos do autor, o "Anfitrião do Campo-Santo" foi o escolhido para subsidiar nosso bate-papo, visto que, a temática da linha de esquerda na Umbanda ainda suscita muita discussão e, sobretudo, polêmica e preconceitos. Infelizmente! 
O leitor ao mergulhar nas histórias narradas pelo "Guardião Exú-Caveira", poderá ter uma pequena noção de como atuam esses espíritos tão incompreendidos. Com linguagem simples e objetiva, é sem duvidas, mais uma obra que ajuda a desmistificar o trabalho dos Exús de Umbanda, mas, em certos aspectos, pode levantar discussões polêmicas. Portanto, se você busca uma opção de leitura desta fração do universo da Umbanda, porém, sem o peso conceitual dos livros doutrinários e teológicos, "Anfitrião do Campo-Santo" pode ser uma alternativa... 
Sobre algumas curiosidades da obra e, outros assuntos de interesse geral da comunidade umbandista, convidamos todos vocês para conferirem na sequência nosso Diálogo de número 04 !             


Registrem  suas opiniões e comentários em nosso espaço!  


Blog N.M.UConte-nos um pouco, como começaram suas atividades na seara umbandista. Quais “funções” desenvolve hoje dentro do grupamento que participa?  
André- Na verdade, a Umbanda se confunde com meu crescimento enquanto indivíduo, pois, meu pai tinha um terreiro nos fundos da casa onde residíamos, em Porto Alegre, nos idos dos anos 70. Cresci vendo Orixás, guias espirituais atuarem, nas noites de sábado, semanalmente. Hoje, sou Sacerdote Umbandista formado e iniciado por Mãe Maria de Fátima Saraceni e atuo como sacerdote por intermédio da linha do Conhecimento (já residindo no Rio de Janeiro há quinze anos), pois, entendemos que por outra via a Umbanda não conseguirá seguir à frente.

Blog N.M.USobre seus livros. Poderia compartilhar mais informações...
André- Claro, vamos lá...

a) Quando decidiu escrever?
André- A escrita está no meu gosto pessoal desde a infância. Já era médium de incorporação, em 2008, quando comecei a escrever um conto chamado "O Anjo Mulher". Depois deste, vieram outros, que compõem hoje a obra "Contos D'Aruanda- e algumas mensagens de fé, paz e evolução", publicada pela Madras Editora. Foi o primeiro livro que escrevi e o terceiro (dois oito já publicados) a ser lançado.
Durante este processo, percebi que havia algo diferente na minha escrita e, no meio do caminho, fui informado por Pai Thomé do Congo que estava psicografando.
b) Quais foram suas principais motivações?
André- A possibilidade de servir à Deus por intermédio da Umbanda trazendo um pouco mais de conhecimento para os irmãos umbandistas. Conhecimento este que é transmitido por nossos mestres espirituais, do qual sou, apenas e simplesmente, um redator de mensagens.
c)Como se desenvolve o processo de produção? Por quanto tempo pesquisa, ou pesquisou?
André- Bem, para algumas obras, os mestres me exigiram fazer algumas pesquisas, para que elas pudessem fluir. Mas a base de tudo, sob orientação deles, foi estudar as obras, o método, a teologia e a filosofia do Mestre Rubens Saraceni. Para nós, a renovação umbandista veio por intermédio deste Sacerdote.
Hoje, estudo Filosofia e Sociologia e já temos novos trabalhos nesta área, onde a Umbanda é mostrada como uma Escola Evolutiva, uma Filosofia de Vida presente em nossa sociedade e no cotidiano de cada um de nós.
d) Já psicografou?
André- Nossos oito livros já publicados são todos psicografados.
e) Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas no processo? Há espaço para o escritor de Umbanda no meio editorial?
André- Acho que a dificuldade que um umbandista enfrente em qualquer campo, em nosso meio social, é o preconceito, a maior erva daninha desta nossa sociedade. Mas nós lutamos contra ele como quem quer exterminar uma praga, pela via do conhecimento e do estudo. Não há, para nós, outra forma de afirmar a Umbanda.
Há sim espaço para escritores umbandistas no meio editorial e isto vem se mostrando com o crescimento rápido de obras umbandistas nas prateleiras das livrarias. Destaco, neste processo, como fundamental, a coragem da Madras Editora em publicar livros de Umbanda. Isto tem impulsionado outros autores e editoras a seguirem esta trilha.
f) Acha positivo para o movimento religioso afro-brasileiro e espiritualista que tenhamos mais escritores, pesquisadores, blogueiros e produtores de conteúdos diversos?  Quais conselhos daria, caso fosse procurado, por algum destes, interessados em publicar livros e outros materiais sobre a religião?
André- Muito mais do que positivo... fundamental!!!
Se fosse procurado, aconselharia a persistir, seguir em frente e superar toda e qualquer vicissitude.


Blog N.M.USeu livro “O Anfitrião do Campo-Santo”, traz à luz o importantíssimo trabalho dos Exús para a dinâmica do trabalho umbandista, como atuam e sustentam médiuns e grupamentos na busca de fazer cumprir as proposituras iniciadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas que é a caridade espiritual incondicional. Em sua opinião, atualmente, quais são os aspectos que mais deturpam a imagem dos Exús? Partem de dentro ou fora dos meios umbandistas ?
André- Voltamos ao preconceito!
Tenho percebido que o movimento ocorre, concomitantemente, de fora para dentro e de dentro para fora da religião.
Há um forte preconceito em nossa sociedade em relação à Umbanda, por conta de sua origem humilde, simples e popular. A Umbanda é simples e complexa ao mesmo tempo. Simples em suas práticas e complexa (entendamos esta complexidade como profundidade) em seus fundamentos teológicos, filosóficos e científicos.
Mas há um preconceito interno e equivocado por parte dos próprios umbandistas, quando, manifestando o pouco conhecimento que possuem sobre sua religião, reverberam e cristalizam o que ocorre lá fora.

Blog N.M.UOutro ponto observado em seu livro, são conceitos que fazem parte, sobretudo, do universo da Umbanda Sagrada quando a temática dos “guardiões” é abordada, que foi preconizada por Rubens Saraceni em sua quantitativa obra bibliográfica. Quais aspectos desta formação ajudaram a compor esta obra?
André- Com respeito à toda e qualquer linha de pensamento dentro da nossa religião (e penso que elas, de forma plural e diversa, devem existir), temos no Mestre Rubens Saraceni a linha mestra de condução da Umbanda a partir do Século XXI. Nossa religião precisa caminhar calcada na Ciência Divina, que sempre se manifestou nos terreiros e, recentemente, veio esmiuçada por este Sacerdote, trazendo-nos estes ensinamentos de Mestres da Luz (especialmente, Pai Benedito de Aruanda e Mestre Seiman Hamiser Yê- um Sr. Ogum Megê Sete Espadas da Lei e da Vida).
A série de romances psicografadas por este senhor, que traz em si relatos de histórias de exus guardiões, é fundamental para a quebra dos preconceitos dos quais tanto falamos. As obras "Orixá Exu- Fundamentação do Mistério Exu na Umbanda", "Livro de Exu", "Orixá Pombagira" e "Orixá Exu Mirim", todas publicadas pela Madras Editora, trazem um conhecimento fundamental até então velado, mas que, se percebêssemos as nuances nos trabalhos e ensinamentos dos guias espirituais no primeiro século da Umbanda, os identificaríamos facilmente.
Este autor provocou, provoca e ainda provocará muitos ranços dentro do meio umbandista, porque, infelizmente, alguns dos nossos irmãos, ainda preferem buscar em outras denominações filosófico-religiosas, os fundamentos para a Umbanda que, em verdade, tem os seus próprios.

Blog N.M.UAinda no livro, são relatadas algumas histórias onde espíritos caídos conseguem com todos seus méritos galgar patamares de agentes executores da lei, porém, para que cheguem a trabalhar nas conduções de médiuns e terreiros, devem abdicar de seu livre arbítrio, entre outras condições. Esse processo acontece com outros espíritos fora das faixas energéticas da esquerda?
André- Acreditamos que o processo evolutivo do espírito humano, seja qual for, se encaminha para isto, em um tempo maior ou menor, mas, no tempo de cada um. Afinal, se eu consigo entregar-me completamente a Deus, o livre-arbítrio ainda se faz necessário? Alguns arrepiarão os cabelos com esta minha colocação, mas, ainda assim insisto: se estou plenamente em Deus e Ele/Ela plenamente em mim, o que mais devo escolher?

Blog N.M.UMas levando-se em consideração as diferentes maneiras e  ritos presentes nas manifestações umbandistas, geralmente fruto da formação cultural de seu dirigente e das entidades “Dirigentes”, como você enxerga essa realidade de múltiplas facetas tão própria da Umbanda? É a favor que se padronize os cultos de Umbanda, como já tentaram algumas correntes dentro do movimento?
André- Considero isto uma perda de tempo! Com meu respeito à toda e qualquer opinião. Devemos pensar teologicamente, filosoficamente, sociologicamente e antropologicamente até, como um movimento unitário, mas diverso.
Os guias espirituais, em suas jornadas, trazem em suas bagagens evolutivas, muitas formas e ensinamentos que só podem enriquecer o trabalho umbandista. Devemos avançar além da ritualística (que é própria de cada casa) para a compreensão da Ciência Divina. A Umbanda reproduz e manifesta esta Ciência. Retiremos os véus que nos são colocados por meio da mitologia e, por trás deles, lá encontraremos uma Ciência Divina libertadora e expansora dos seres e consciências no rumo da Sabedoria.

Blog N.M.UO movimento umbandista na atualidade tem sofrido muitas mudanças, fruto das alterações socioculturais a que estamos submetidos. Recentemente, publicamos aqui no blog, através de nosso editor, um texto sobre a “Escolarização da Umbanda”, onde aspectos positivos e negativos da cultura de informação através de cursos “online”, possam possibilitar uma formação umbandista aos simpatizantes e leigos, além de promoverem formação Sacerdotal. Quais suas opiniões sobre o assunto?
André- Não podemos dar as costas ao Conhecimento! É fundamental na vida. A prática deve ter conhecimento teórico como base. E nenhuma teoria se fundamenta sem uma prática posterior.
Vivemos em um país onde o estudo é escrachado e ridicularizado. As pessoas não gostam de estudar e isto se reflete também no trabalho religioso. A máxima que diz: "meu guia sabe tudo, eu não sei de nada" é, em si, uma perpetuação da acomodação e da ignorância. Os guias espirituais trabalham em prol da nossa evolução individual para que a evolução do Todo ocorra de forma plena.
Então, o guia trabalha e você desencarna sem levar daqui nada a mais? Eles trabalham para que nós evoluamos! É isto!
Com relação aos cursos, sejam virtuais ou presenciais, penso que devem trazer algo mais. Ritual pela internet ou em qualquer curso presencial, pouco acrescenta. Mas Ciência acrescenta, com toda certeza! Por que não temos Escolas de Filosofia, de Antropologia, de Sociologia umbandistas? Por que não temos ensino básico umbandista ou, escolas básicas, de primeiro e segundo graus umbandistas para crianças e adolescentes? Por que outras religiões conseguem disseminar suas ideias pelo conhecimento em escolas e universidades? Por que são organizados e sabem trabalhar em prol de um ideal.
A formação sacerdotal, preparando o candidato a sacerdote em seu aspecto iniciático, por si só, é válida? Sim, porque os Sagrados Orixás imantam e preparam, reconhecendo aquele(a) como um(a) sacerdote(isa) umbandista. E a teoria? Esta expande a mente do sacerdote por intermédio de um conhecimento libertador. Teoria e prática, prática e teoria se complementam o tempo todo. E devem fundamentar nosso trabalho umbandista.
Volto a falar em ranço, de algumas pessoas que questionam o fato de o sacerdote ou sacerdotisa terem diploma ou certificado. Saibam, irmãos, estes, receberam sim muita carga teórica, mas passaram por um processo iniciático profundo, desconhecido por quem critica.
Infelizmente, algumas pessoas em nosso país, tornam-se raivosas se levadas a conjugar o verbo "estudar".

Blog N.M.UAtravés do blog, desenvolvemos também, um artigo sobre “indicações literárias para umbandistas iniciantes”, onde dividimos as obras por categorias, além de prezarmos, sobretudo, as publicações entendidas como as de “dentro” da religião. Para os leitores que nos acompanham, poderia nos indicar uma lista de 10 (dez) livros fundamentais para conhecermos a História, Doutrina e cultura de Umbanda?
André- Vamos lá:
1) Umbanda Sagrada- Rubens Saraceni
2) As Sete Linhas de Umbanda- Rubens Saraceni
3) O Guardião da Meia Noite- Rubens Saraceni
4) O Guardião das Sete Encruzilhadas- Rubens Saraceni
5) Doutrina e Teologia de Umbanda Sagrada- Rubens Saraceni
5) Gênese Divina de Umbanda Sagrada- Rubens Saraceni
6) Tratado Geral de Umbanda- Rubens Saraceni
7) Fundamentos Doutrinários de Umbanda- Rubens Saraceni
8) Rituais Umbandistas: Oferendas, Firmezas e Assentamentos- Rubens Saraceni
9) Os Guias Espirituais da Umbanda e seus Atendimentos- Lurdes de Campos Vieira
10) História da Umbanda- Alexandre Cumino
Após a leitura destes, se vale a indicação de um décimo primeiro e fundamental, indico "Código de Umbanda", também de Rubens Saraceni. Este vem para selar um conhecimento científico, hoje, mais do que fundamental para a formação do umbandista.
Todos os livros indicados foram publicados pela Madras Editora www.madras.com.br.
Blog N.M.U- Há algum livro ou autor que não aconselha a leitura ? Se sim, porquê?
André- Não me vejo em condições de fazer isto. Penso que as pessoas devem sempre ter o direito à livre escolha.

Blog N.M.UAgradecemos a oportunidade de proporcionar ao blog e aos seus leitores a possibilidade de entendermos mais aspectos que fazem umbandistas como você e, outros  por todo o país, pesquisarem e escreverem sobre a religião. Neste último momento, oferecemos espaço sem qualquer limitação, para deixar aqui um registro aos nossos simpáticos e amigos leitores...
André- Que os umbandistas busquem no conhecimento claro e límpido, as respostas para seus questionamentos, o entendimento para o verdadeiro fundamento e verdadeira função deste movimento filosófico, social e religioso denominado Umbanda entre os humanos encarnados e para a Criação de Deus como um todo. Que, a partir deste conhecimento, todos os vícios ainda presentes na nossa prática possam ser dissipados. E que a Umbanda possa ser, em cada um de nós, uma Escola Evolutiva, uma Filosofia de Vida, de Fé e Amor que habite nossos corações não somente nos terreiros, nas engiras, mas no dia a dia, cada vez mais, com Conhecimento Expansor, Equilíbrio e Ordenação, Evolução sadia com Sabedoria e Geração de Vida, pois, vida se gera o tempo todo, todos os dias, a cada instante, a cada pulsar dos nossos corações, bem como, do coração do planeta e do coração divino.
Que a pulsação divina, a respiração de Deus, nosso Pai Criador e Mãe Geradora, nos banhe o tempo inteiro com seus eflúvios libertadores. Que a Umbanda seja o veículo que nos leva de volta à nossa Origem.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Pretos Velhos - #Arquétipo 02#

Amigos e leitores. 
Após publicarmos as novidades e ações inauguradas por este Blogcom a nova coluna Diálogo com Autores e nossa mais recente parceria de apoio cultural com a Sattva Editora é chegada a hora de retomarmos a série de textos, Guias de Umbanda quem são?
A primeira abordagem tratou o arquétipo 'Caboclos' e nesta sequência teremos os Pretos-Velhos como o centro da exposição dos nossos escritos.
Lembramos sempre em nossas advertências iniciais que nossos posicionamentos não refletem verdades absolutas, tampouco, pretendem polemizar ou confrontar conceitos estabelecidos, nosso intuito é apresentar um panorama geral contribuinte à desmistificação, portanto, amigos e leitores, apontem as possíveis discordâncias, critiquem construtivamente e sugestionem novas perspectivas para futuras abordagens.


Pretos Velhos


Simbolizam juntamente com os Caboclos, o que Leal de Souza referenciou de "Protetores da Linha Branca de Umbanda", pois, em seus trabalhos a humildade, fé e caridade são as marcas registradas, assim como a forma plasmada de anciãos que possam ter sido escravizados ou não. No livro O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda, de 1933, o autor, descreve assim a atuação dos "negros" na Umbanda...
..."Esses protetores se graduam numa escala que ascende dos mais atrasados, porém cheios de bondade, aos radiantes espíritos superiores.
O protetor, na linha branca é sempre humilde e, com a sua língua atravessada, ou incorreta, causa uma impressão penosa de ignorância, mas frequentemente, pelos deveres de sua missão, surpreende os seus consulentes, revelando conhecimentos muito elevados"... 

Pai Antonio 
Vale ressaltar o fato histórico e percursor das manifestações dos pretos velhos na Umbanda, presente desde de sua anunciação ou fundação, em novembro de 1908 com o advento do Caboclo das Sete Encruzilhadas. Na oportunidade após a primeira "incorporação oficial" do caboclo que anunciara um dia antes a gira pública de fundação da Umbanda, manifestou-se também através da mediunidade de Zélio de Moraes a entidade Pai Antonio. Era a presença espiritual dos negros que haviam juntamente com indígenas sidos repelidos da reunião na federação espírita. Apresentando aspectos de um ancião de fala "atrapalhada" e com postura humilde, Pai Antonio, simbolizou desde então as formas de trabalho da linha dentro da religião. O uso de tocos ou bancos como assento durante os atendimentos, a utilização de fumos nos cachimbos para fins magísticos de combate a enfermidades físicas ou espirituais deletérias, as guias de fios de contas para proteção energética durante os trabalhos, entre outros aspectos da cultura dos cultos de nações africanas. 
O ponto cantado também foi "inaugurado" por Pai Antonio naquele primeiro encontro, referências contidas na "História da Umbanda no Brasil", do autor Diamantino Trindade, ilustram aos leitores esse momento...
..."O primeiro ponto cantado nasceu na primeira sessão quando ele pediu o cachimbo:


Minha cachimba tá no toco
Manda muréque buscá
Minha cachimba tá no toco
Manda muréque buscá
No alto da derrubada 
Minha cachimba ficou lá 
No alto da derrubada 
Minha cachimba ficou lá
No alto da derrubada 
Minha cachimba ficou lá 


Outros fatos e curiosidades marcaram e caracterizaram ainda na fundação da Umbanda a presença desta falange. Importante ressaltar que as manifestações do arquétipo, muito provavelmente, já ocorriam, pois, assim, indicam outras fontes de pesquisa. Deste modo, o fato ao qual nos referimos é estritamente relacionado ao ambiente de surgimento da Umbanda, anunciado, proposto e organizado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas.
São inúmeros os nomes cabalísticos ou de trabalhos dos falangeiros desta linha, assim como os demais (outros espíritos militantes de Umbanda), podem ou não apresentar relações com a energia do Orixá que representam ou irradiam. Em geral são chamados de Vovô, Vovó, Pai, Mãe, Tio ou Tia possibilitando nomes assim: 
  • Pai Anacleto, Pai Antônio, Vovô Agripino, Pai Benedito, Pai Benguela, Pai Caetano, Pai Cipriano, Pai Congo, Pai Dindó, Pai Fabrício das Almas, Pai(Vovô) Firmino D'Angola, Pai Francisco Pai Jacó, Vovô Jeremias, Pai Jerônimo, Pai João, Pai João Baiano, Pai Joaquim, Pai Jobá, Pai Jobim, Pai José D'Angola, Pai Mané, Pai Miguel D'Arruda, Pai Roberto, Pai Serafim, Pai Serapião, Pai Severino, Pai Tomaz, Pai Tomé.
  • Vovó Acácia, Vovó Ana, Vovó Anastácia, Vovó Cambinda (ou Cambina), Vovó Filó, Vovó Carolina, Tia Chica, Vó Ditinha, Vovó Barbina, Mãe Benedita, Mãe Cassiana, Vovó Francisca, Vovó Luíza, Vovó Maria Conga, Mãe Maria D'Aguine, Vovó Manuela, Vovó Chica, Vovó Ana, Tia Joana, Vovó Maria, Vovó Maria Maria Redonda, Vovó Catarina, Vovó Luiza, Vovó Rita, Vovó Gabriela, Vovó Quitéria, Vovó Mariana, Vovó Maria da Serra, Vovó Maria de Minas, Vovó Rosa da Bahia, Vovó Maria do Rosário, Vovó Benedita, Mãe Terezinha D'Angola, Tia Zefinha  
Suas consultas são marcadas pelo aconselhamento e acolhimento fraterno, receitam todo tipo de infusões, banhos, chás, defumações e simpatias. Comemoramos seu dia festivo em 13 de Maio que representa a libertação dos negros escravizados no Brasil. As giras dos Avôs e Avós trazem a paciência, paz, fé e humildade para com os outros, propiciando em suas palavras, conselhos e gestos um momento de reflexão em nossa vida, para que possamos dentro de nossas limitações buscarmos novos caminhos e condutas.
Saravá os Pretos Velhos !


                                        

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Nova Parceria - Apoio Cultural Sattva Editora



Amigos e leitores, é com grande satisfação que anunciamos, oficialmente, mais uma parceria de apoio cultural. A parceira da vez é a Sattva Editora
Esperamos, com esse novo relacionamento, proporcionar mais conteúdos compromissados em aumentar o nível dos debates sobre a temática umbandista através do estudo contínuo por diferentes perspectivas.

A resenha de livros especializados sobre a religião de Umbanda e outras do segmento, sempre foi um dos nossos principais projetos e objetivos, pois, toda estrutura de produção aqui no blog, está, centrada na pesquisa orientada pela bibliografia umbandista, tanto daquelas oriundas dos terreiros, como das produzidas na academia, além é claro, de nossa vivência diária da prática umbandista.




Para maiores informações sobre os títulos publicados pela Sattva Editora, acesse: 






Lembre-se leitor! Este espaço também é seu... Envie comentários, sugestões de temas, críticas construtivas e toda manifestação que ajude a melhorar nossas abordagens.

Tenham todos um ótimo carnaval !    
            

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Diálogo com Autores#03

Olá amigos e leitores. 

Com imensa satisfação voltamos às atividades do blog, e com gás total!
Nossa coluna Diálogo com Autores, ganha mais um 
convidado de 'peso' para a contribuição que a iniciativa da proposta oferece. Ademir Barbosa Junior, conhecido também como 'Dermes', é umbandista, escritor(com mais de 70 livros publicados e traduzidos em outros países), pesquisador e Pai da Tenda de Umbanda Iansã Matamba e Caboclo Jiboia que tem direção de sua esposa Mãe Karol Souza Barbosa. Mestre em Literatura Brasileira pela USP, onde também se graduou em Letras, é professor, tradutor, revisor, terapeuta holístico. Produziu e colaborou para diversas iniciativas como, curtas-metragens, fóruns, eventos, festas públicas entre outros, sempre congregando a Umbanda, Candomblé, Pastoral Afro (Igreja Católica) e outros segmentos. É Presidente da Associação Brasileira de Escritores Afro-Religiosos(ABEAFRO.).

A Obra - "Teologia de Umbanda e suas dimensões".

Nosso contato ocorreu em virtude das atividades no blog e sobretudo, pela Coluna dos Diálogos. Recebemos, gentilmente, alguns livros para aprofundarmos os conhecimentos na literatura do autor, e para que pudéssemos projetar um trabalho por aqui especificamente, optamos sem qualquer dúvida pela obra "Teologia de Umbanda e suas dimensões", a fim de estabelecermos contatos com uma gama de conceitos e estruturas tão próprios dos autores que se aventuram por esta estrutura de conteúdos dentro do universo de Umbanda. 
O livro, publicado pela Editora Anubis, tem projeto gráfico e editorial que surpreendem positivamente, aliando linguagem simples e capítulos dinâmicos que possibilitam uma leitura agradável e fluida. Ao longo de suas 243 páginas, o autor fundamenta sua idéia teológica entre temas e tópicos que vão desde a formação do vocábulo Umbanda, passando pela história, a relação do sincretismo, símbolos e marcos, estrutura de crenças, Divindades, Orixás, Guias, a esquerda Exú - Exú Mirim e Pombogira, aspectos da hierarquia nos terreiros, liturgia, rituais e elementos de trabalho. As dimensões da prece, da ecologia, do holismo, ecumenismo, ciência e ética na caminhada espiritual, entre tantos outros temas. O autor também retrata boa parte de suas discussões paralelizando ponto análogos da Umbanda com o Candomblé, o que é positivo, num momento que para muitas outras abordagens a tendência é distanciar as práticas umbandistas de qualquer modelo sincrético ou estético das culturas de nação, quando em outra frente, pode parecer negativo se o leitor não conseguir filtrar as pontuações como um convite ao diálogo entre os diferentes segmentos de Umbanda.
Sem dúvidas é um livro que merece ser lido, analisado e discutido, pois imaginamos ser esse o propósito básico de qualquer obra.

DIÁLOGO #03

Blog N.M.U-  Conte-nos um pouco, como começaram suas atividades na seara umbandista. E quais “funções” desenvolve hoje dentro do grupamento que participa?   
Dermes- Quando criança, a primeira vez que vi o mar, foi numa festa de Iemanjá. Uma tia carnal dirigia um terreiro no em Piracicaba, interior paulista. Em minha busca espiritual, passei por muitos lindos caminhos e hoje estou na Umbanda, como um dos dirigentes da T. U. Iansã Matamba e Caboclo Jiboia, que tem como dirigente maior minha esposa, Mãe Karol de Iansã. Sou vice-presidente do Fórum Catarinense de Umbanda e em 2014 presidi o Fórum Europeu de Umbanda, em Leiria, Portugal, além de ter dirigido vários curtas, um deles com participação de Leci Brandão, e ter organizado e produzido uma série de fóruns e projetos, como voluntário. São pequenas contribuições que se somam às de outros tantos irmãos.

Blog N.M.U- Sobre seus livros. Nesta enorme caminhada como escritor, tendo inclusive, publicações traduzidas em outros países, poderia compartilhar mais informações...

a) Quando decidiu escrever?
Dermes- Escrevo desde menino e tenho livros publicados de outras áreas, com premiações, indicações etc. Amo o que faço, ainda que nem sempre tenha o tempo e o sossego necessários.
b) Quais foram suas principais motivações?
Dermes- A paixão pela palavra escrita e, no caso dos livros de que tratamos, também a paixão pela Umbanda. São mais de 70 livros publicados e minha maior alegria é ter escrito 11 livros sobre Orixá Exu e Guardiões e Guardiãs (parte do projeto se empobreceu pela retirada dos estudos iconográficos em cada volume), além deste último, traduzido para vários idiomas, “Compadres e Comadres – Sete Histórias de Exus e Pombogiras” (Sattva Editora), pois a Esquerda é a parte mais detratada de nossa religião.
c) Como se desenvolve o processo de produção? Por quanto tempo pesquisa, ou pesquisou?
Dermes- Depende de cada projeto. Meses ou anos, conforme o projeto.
d) Já psicografou?
Dermes- Sim. “Fala, Zé Pelintra – Palavras de Doutor” e “Mensagens dos Guias de Umbanda”, ambos publicados pela Editora Anúbis.
e) Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas no processo? Há espaço para o escritor de Umbanda no meio editorial?
Dermes- O espaço tem sido conquistado, em especial em editoras do segmento ou com ao menos um viés de sua linha editorial. Mas é conquista mesmo, negociação, conversa, argumentação.
f) Acha positivo para o movimento religioso afro-brasileiro e espiritualista que tenhamos mais escritores, pesquisadores, blogueiros e produtores de conteúdos diversos?  Quais conselhos daria, caso fosse procurado, por algum destes, interessados em publicar livros e outros materiais sobre a religião?
Dermes- Costumo dizer que toda publicação, ainda que com temas espinhosos, deve privilegiar o diálogo, por vezes o debate, mas não a polêmica infértil. Com exceção dos livros psicógrafos, intuídos etc., deve-se chegar fontes de pesquisas, reunir bibliografia etc., vale dizer, associar método e disciplina à paixão pela escrita.

Blog N.M.U- Notamos em seu livro “Teologia de Umbanda e suas dimensões”, uma forte influência de aspectos culturais ligados à expressões religiosas afro-brasileiras, como o Candomblé por exemplo, talvez até oriundos de sua formação religiosa. Podemos considerá-lo um representante de alguma das expressões umbandistas mais ligadas aos cultos de nação, como Omolokô ou Almas e Angola?  
Dermes- A maioria de meus livros trata da Umbanda em sua dimensão plural, não representa necessariamente a maneira como tocamos em nossa casa. O intuito é que os leitores reconheçam a Umbanda, a pluralidade, os segmentos umbandistas etc., daí o espaço que se dá a informações que permitam a apresentação do mosaico umbandista da forma mais completa possível.  Em nenhum dos livros esgoto isso. Em nossa casa trabalhamos com a chamada Umbanda de Sete Linhas ou Umbanda Cruzada, mas “cruzada” porque são dois dirigentes de formações umbandistas distintas, o que se verifica, inclusive, no nome da casa, mas não tocamos ou mesclamos Umbanda e Cultos de Nação. Evidentemente influências existem de ambas as partes, como discuto em todos os livros e de forma mais particular num próximo lançamento: “Umbanda tem fundamento, não fundamentalismo”.

Blog N.M.U- Mas levando-se em consideração as diferentes maneiras e  ritos presentes nas manifestações umbandistas, tópico também presente em seu livro, geralmente fruto da formação cultural de seu dirigente e das entidades “Dirigentes”, como você enxerga essa realidade de múltiplas facetas tão própria da Umbanda? É a favor que se padronize os cultos de Umbanda, como já tentaram algumas correntes dentro do movimento?
Dermes- Sempre me repito e consegui incluir em documentos, mesmo de projetos de que não mais participe, a seguinte ideia: Umbanda é união, não unificação. É preciso respeitar a diversidade, o que não significa um vale-tudo. Uma de tantas belezas da Umbanda é a diversidade. Além disso, toda vez que alguém pensa em unificar algo, é para padronizar segundo a sua experiência, e não a de outro. A Espiritualidade  é sábia, dois Caboclos não trabalham da mesma forma, com os mesmos elementos etc.

Blog N.M.U- Ainda no livro (‘Teologia de Umbanda e suas dimensões’), no capítulo referente a dimensão da liturgia, há uma abordagem sobre o ‘corte como sacrifício ritual’, é imperativo destacarmos que os esclarecimentos acerca do tema, mostra uma generalização referente à Umbanda, como não sendo, digamos, o terreno, para essas práticas, o que não inviabiliza de serem praticados em casas com influências dos cultos de nação. Diante de um quadro de desinformação e pré-conceitos estabelecidos por todos a qualquer momento, como vê essa questão tão polêmica dentro do universo de Umbanda? Você já foi criticado por abordar esta temática em livros de Umbanda?
Dermes- Nunca pratiquei o corte e já fui muito criticado por ter sido filho de uma casa de Candomblé em que a Mãe, paulatinamente, substituiu o corte por outros elementos (aliás, como muitas fazem, embora nem todos aceitem essa realidade/vertente). Por não praticar o corte, sinto-me à vontade por defender o direito do irmão que o pratica da forma correta, ecológica, cheia de Axé, alimento e festa para a comunidade.

Blog N.M.U- A dimensão ecológica tratada em sua obra é de importante reflexão para todos ligados ao culto de forças naturais. É urgente repensarmos nossas práticas e rituais a fim de sermos cada vez menos poluidores dos sítios, onde estão as forças dos Orixás. Seu relato traz propostas e ações com relação a este problema, implementadas provavelmente em algum terreiro de Santa Catarina. São elas, a “Compostagem Orgânica” e o “Sistema de Incineração”, onde resíduos de obrigações, despachos e oferendas são encaminhados após separação dos mais nocivos ao tratamento e sistema de ecológico. Diante do relato ficam algumas perguntas: Este tipo de ação promovida pelo terreiro, teve autorização do Guia Dirigente? São todos os casos que podem ser encaminhados ao tratamento ecológico? Pois, é de conhecimento da grande maioria que, determinados  trabalhos são receitados pelos guias e devem ser entregues em matas, praia, despachados em rios e mar, claro, sem a presença de elementos poluidores...
Dermes- Segundo o dirigente da casa houve autorização da Espiritualidade. Conversamos um pouco sobre, li seus estudos sobre, contudo quem melhor pode falar do processo é o próprio autor. Entendo particularmente que se um elemento é absorvido pela terra pode, então, passar pelo processo de compostagem. Da maneira como me tornei dirigente, aprendi que todo trabalho tem um tempo determinado para ser curiado. Após isso, tudo dever ser recolhido, retirado da natureza (a não ser o que é realmente entregue, seja em águas, no solo etc.). Muitos não concordam com essa prática, mas é uma questão de fundamento e o tempo estabelecido para a ação energética nunca foi desrespeitado, com sol ou chuva, nos pontos de força ou não.

Blog N.M.U- O movimento umbandista na atualidade tem sofrido muitas mudanças, fruto das alterações socioculturais a que estamos submetidos. Recentemente, publicamos aqui no blog, através de nosso editor, um texto sobre a “Escolarização da Umbanda”, onde aspectos positivos e negativos da cultura de informação através de cursos “online”, possam possibilitar uma formação umbandista aos simpatizantes e leigos, além de promoverem formação Sacerdotal. Quais suas opiniões sobre o assunto?
Dermes- Respeito, tem seu valor, mas não adiro. Umbanda se aprende em terreiro, com pé no chão. Livro nenhum ou curso substituem isso. Preocupa-me ver médiuns que abandonam seus dirigentes, muitas vezes analfabetos, mas com sabedoria e conhecimento fantásticos, para fazer cursos on-line. Preocupa-me também a moda de todo médium ter de se tornar sacerdote, sem firmeza, sem fundamento seguro e, pior, sem apontamento da Espiritualidade.

Blog N.M.U- Através do blog, desenvolvemos também, um artigo sobre “indicações literárias para umbandistas iniciantes”, onde dividimos as obras por categorias, além de prezarmos, sobretudo, as publicações entendidas como as de “dentro” da religião. Para os leitores que nos acompanham, poderia nos indicar uma lista de 10 (dez) livros fundamentais para conhecermos a História, Doutrina e cultura de Umbanda?
Dermes- Como em meus trabalhos me utilizo de bibliografia e a mesma não para de crescer,não seria justo citar apenas 10 dos autores, alguns, inclusive, amigos pessoais. Em vez disso, sugiro aos leitores não se fecharem apenas num tipo de segmento umbandista e fugirem de qualquer autor que se pretenda ter escrito algo como o Livro Sagrado da Umbanda. Aliás, o Livro Sagrado da Umbanda, sempre me ensinaram, é a natureza.

Blog N.M.U- Há algum livro ou autor que não aconselha a leitura ? Se sim, porquê?
Dermes- Acho que se deve ler tudo, mas com senso crítico e crístico. Contudo, certamente livros que colocam a Direita como “do bem” e a Esquerda como “do mal” prestam um desserviço á religião de Umbanda.

Blog N.M.U- Agradecemos a oportunidade de proporcionar ao blog e aos leitores que nos acompanham, a possibilidade de entendermos mais aspectos que fazem umbandistas, como você, e por todo o país, pesquisarem e escreverem sobre a religião. Neste último momento, oferecemos espaço sem qualquer limitação, para deixar aqui, um registro aos nossos simpáticos e amigos leitores...      
Dermes- Meus irmãos, somos todos aprendizes. Costumo dizer que ninguém leva a Bandeira de Oxalá sozinho, até porque, se ela cobre o mundo, é maior do que ele, e precisa de todos. Não somos proselitistas, então levar a Bandeira de Oxalá, é contribuir para a paz, a fraternidade, o amor. Como num estado laico, religião é também questão de cidadania, precisamos estar atentos e atuantes, e não nos esconder e negar nossa identidade. Saravá! Axé!